Eu curto almoçar sozinha. Tirar a hora do almoço para estar comigo. É o tempo que me sobra sozinha, além dos minutinhos de banheiro quando as crianças não batem na porta.
Vejo aquele monte de gente que sai todos os dias juntos para almoçar e fico me perguntando se tem tanto assunto assim para conversar entre as garfadas e no trajeto até o restaurante, dia após dia. Eu não tenho tanto assunto. Admiro quem tenha, acho que deve ser legal, até almoço em grupo de vez em quando. Mas eu como devagar. Tenho vergonha do barulho que faço para comer, às vezes. Fico embaraçada de atrapalhar a exígua hora de almoço dos meus colegas com minha demora.
Além disso, gosto de bater perna no Centro do Rio indo e voltando do restaurante. Gosto do burburinho, de ver as vitrines, de ver os turistas na Gonçalves Dias, de ouvir os sons do Largo da Carioca... Claro que de vez em quando rola um estresse, um medinho de assalto ou do palhaço que persegue a gente na Uruguaiana. Achei que esse palhaço tivesse saído dali, achado outro ponto. Mas hoje, indo almoçar mais uma vez sozinha, andando no calçadão da Uruguaiana no meu passo corrido e minha cara fechada, o tal palhaço cismou de me seguir. Quem me conhece sabe meu pavor de palhaço. Tomei um susto, xinguei, atravessei a rua e por pouco não fui atropelada. E isso enquanto dezenas de pessoas assistiam à performance do tal palhaço. Não percebi nenhuma risada do meu susto.
Acho que aquelas pessoas já estão ali paradas assistindo no modo automático. Só devem ter alguma reação quando alguém reage de forma muito absurda ou pastelão à abordagem do palhaço. Fiquei com pena daquelas pessoas, e me veio à cabeça a voz do Sergio Chapelin na chamada do Globo Repórter: "Espectadores de shows de rua no Centro do Rio: O que fazem da vida? Onde vivem? Do que se alimentam? Como fazem para chegar ali? Nesta sexta, no Globo Repórter...".
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